Toda vez que eu vejo algum japonês, tranquilão, na dele, lendo uma revista em uma livraria ou em uma loja de conveniência, eu lembro da época em que eu morava no Brasil e o jornaleiro, nem deixava a gente cogitar a possibilidade de ter a intenção de tocar na revista. Era só o tempo de pegar na revista e abrir a primeira página que lá vinha o tiozinho. Os mais educados perguntavam: “procurando alguma revista?”、com aquele ar de falsidade. Já os mais rabugentos eram também os mais sinceros: “vai levar ou não?”
Sei que agora tem no Brasil aquelas livrarias com espaço dedicado à leitura, com poltrona e tudo para os leitores mão-de-vaca. Aqui também tem. Mas o que mais me chama a atenção é a frequência, a tranquilidade e muitas vezes, a cara-de-pau do povo que fica horas lendo revistas ou livros, de pé, nas lojas.
A prática é conhecida em japonês como “tachiyomi” (立ち読み). A primeira parte da palavra, tachi (立ち) vem do verbo “tatsu” (立つ) que significa “ficar de pé, levantar”. A segunda parte, “yomi” (読み), deriva de outro verbo, “yomu” (読む), “ler”. A definição do dicionário é melhor ainda. Veja:

Mas tem uns caras que nem disfarçam. Entram na loja e já vão logo para a parte onde ficam as revistas, escolhem uma e ficam em pé lendo, na maior. Aí vem o segundo e faz o mesmo e se posiciona do lado do primeiro. O terceiro chega e, sem a menor criatividade, pega uma revista e se coloca de pé, bem ao lado do segundo. Vem o quarto, o quinto ... até chegar ao ponto de você, que pretende pagar para levar uma revista, não tem como chegar perto da prateleira para ver as revistas. Fica aquela grande muralha de leitores. Até dá para pedir licença, mas tem uns que parecem estar tão compenetrados na leitura, que se você disser que quer pegar uma revista, é bem capaz de ele te dizer: “Pera! Só esse último parágrafo!”.
O pior é que isso não acontece só em loja de conveniência, não. É livraria grande, livraria pequena, sebo etc. Aliás eu fui uma vez em um sebo e lembro que na parte de mangá – revista em quadrinhos japonesa – tinha uma fila de meninos, um do lado do outro, quase encostados, com um mangá na mão e virados de frente para a prateleira. Eram bem uns 10 garotos enfileirados, calados, quietos, lendo... Era “a” cena! Só não tirei foto porque achei que ia ser difícil convencer meus leitores de que a foto era realmente em um sebo e não em uma biblioteca, como poderia transparecer !!
Mas como diz o provérbio, “Em Roma, como os romanos”, é bem capaz de eu um dia ser pego de pé em uma livraria com uma revista na mão. Não nego que também faço isso as vezes. Adoro passar o olho nos livros, nas revistas... Mas confesso que me sinto mal quando começo a ler o texto. Não sei se é educação minha ou tudo não passa de um trauma de infância. É eu começar a ler o texto que já ouço uma voz dizendo: “vai levar ou não, não, não?!...levar ou não, não, não...”.
Muito bem, a palavra de hoje fica sendo então "livraria". Em japonês claro: 本屋(hon ya). Não confunda com a palavra 図書館(toshokan), que é "biblioteca".