domingo, 15 de junho de 2008

Ideogramas chineses

Eu gosto muito dos "ideogramas ou caracteres chineses" usados na língua japonesa. Por que chineses? Porque foi de lá que os caracteres usados no japonês atual vieram. Embora haja também ideogramas criados por japoneses e que não são usados em chinês. Para entender melhor, basta se basear no nome da nossa língua! Falamos "português" e não "brasilês", embora haja palavras que em Portugal não sejam usadas. Mas, mesmo assim, dizemos que falamos "português". Entendeu o porquê de dizermos ideogramas chineses na língua japonesa? Em japonês, eles são chamados de 漢字 (kanji).
A foto lá de cima é de uma cerimônia especial realizada todo ano aqui no Japão para divulgar o ideograma chinês que mais representa o ano que passou. Para o ano de 2007, foi escolhido o ideograma (偽) de "falsidade", devido a inúmeros escândalos ocorridos durante o ano, entre eles, casos de adulteração nas etiquetas que traziam o prazo de validade de alguns alimentos.

Quadro dos primeiros ideogramas

que os minijaspions aprendem na escola

Para quem não sabe, além dos ideogramas chineses há outras duas formas de escrever em japonês que são bem, mas bem mais simples. Vejamos a palavra "Japão". Veja as diferentes formas de escrever a mesma palavra.

Claro que não é dessa forma jogada que alguém aprende japonês, mas é que não quero fazer deste post uma aula de ideogramas. É só para quem não conhece, ter uma idéia básica do início do começo da introdução sobre os famosos "pauzinhos" - como muita gente costuma apelidar - os ideogramas chineses e os silabários, chamados de "hiragana" e "katakana". Acho interessante por exemplo, quando em uma palavra, que poderia muito bem ser escrita com ideogramas chineses, os próprios japoneses preferem escrever os ideogramas mais fáceis e deixar os mais difíceis em "hiragana" mesmo. Você já reparou? Dia desses eu vi um anúncio de um guia sobre de depressão pós-parto e reparei que apenas o ideograma mais difícil da palavra foi escrito em "hiragana". Vejam a palavra como aparece na primeira linha (産後うつ病):

O mesmo recurso foi usado na capa do livro "Depressão da Mulher". Vejam:

Interessante não?! Por que só um ideograma não foi usado? Uma explicação pode ser que o ideograma em questão não está na lista dos 1945 ideogramas estipulados pelo Ministério da Educação como parte do dia-a-dia. Outra explicação você vai captar logo que eu mostrar qual o ideograma deveria ter sido usado e não foi. Veja:

Viu? Onde está escrito うつ病, deveria estar escrito 鬱病 (utsubyoo). Essa simplificação é muito comum. O que não significa que esse ideograma tão complicado não seja usado nos dias de hoje. É sim. Repare que a palavra 産後鬱病 (depressão pós-parto) aparece neste artigo de jornal:

É comum isso acontecer em japonês. Os próprios japoneses escrevem "hiragana" no meio da palavra quando o ideograma a ser usado é muito complicado! Vejamos outros exemplos:

Este é um cartaz da campanha contra a falsificação de receita médica. A palavra "receita médica" aparece no canto superior 処方せん (shohoosen). Viu lá? Esta é a versão simplificada. Vejam agora a mesma palavra na capa de um livro:

Deu para achar? No cartaz está escrito 処方せん e no livro está 処方箋. Outro caso muito comum é o da palavra "dermatologia". Assim como nos exemplos já citados, a palavra "hifuka" pode aparecer de duas formas:

OU

Bom, acho que por hoje é só. Palavra de hoje em japonês? Pode ser "hesitação". Em japonês se diz "chuucho". Como se escreve? Assim: 躊躇. Até mais!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O BRASIL(EIRO) em JAPONÊS

"Está nas bancas" - entre aspas porque aqui não tem banca de jornal - desde o dia 10, terça-feira, a nova edição da revista Flash. A mais nova edição traz a modelo Natsuko Tatsumi na capa e no interior da revista, em fotos pra lá de sensuais! Quem lê assim, até pensa que eu conheço a modelo e a revista né? Sinto muito, mas, para ser sincero, trata-se de uma inverdade.
Só resolvi mostrar essa revista porque anteontem, me chamou a atenção a matéria de destaque no canto inferior direito da capa: um entrevista com o brasileiro Jucelino Nóbrega da Luz. Aqui no Japão ele é chamado de 予言者ジュセリーノ師 (yogensha juseriino shi) ou “o profeta Jucelino”. Na revista, eles usam a expressão 現代のノストラダムス (gendai no nosutoradamusu), em português claro: o "Nostradamus da atualidade". A chamada de capa diz: “O profeta alerta! Terremoto em Tóquio e Aichi. Tóquio – magnitude 6.5, em agosto e Aichi – magnitude 9.1, em setembro”. Assim como no Brasil, aqui no Japão, há pessoas que acreditam e há aquelas que acham que ele não passa de um charlatão. As palestras que ele dá quando ele vem aqui, sempre lotam, e os ingressos são vendidos antecipadamente pelo site dele em japonês!! A foto de cima mostra o anúncio de uma série de palestras dele por todo o país e na parte em vermelho, a mensagem diz que já se esgotaram os ingressos antecipados on line. Se o que ele fala é verdade ou não, eu não sei afirmar, mas sei que as matérias que saem sobre ele por aqui chamam sempre muita atenção. Sim, esta não é a primeira vez que o cara aparece na mídia japonesa. Ele já saiu nos jornais, já apareceu em programas da tevê e já tem livros traduzidos para a língua japonesa! Infelizmente não pretendo comprar a revista só por causa disso. Por esse motivo, ficarei devendo melhores esclarecimentos com relação ao conteúdo da matéria. Se alguém tiver a oportunidade de ler, sinta-se à vontade para contar a todos! A palavra de hoje em japonês é “premonição”, “pressentimento”. Em japonês, 予感 (yokan), ao pé da letra seria algo como “sentir antecipadamente”. Nos discursos de Jucelino, ele fala muito em “sonho premonitório”. Nesse caso, a palavra pode ser 予知夢 (yochimu).

Quem quiser pode assistir a trechos de programas da tevê japonesa nos quais Jucelino aparece.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

SIN guantes, NO way!

Você verá agora cinco fotos diferentes. Todas são daqui do Japão. Observe bem cada uma delas e tente identificar o que há de semelhante entre elas.

FOTO 1

FOTO 2

FOTO 3

FOTO 4

FOTO 5

Acertou quem respondeu "as luvas brancas". Essas luvas brancas, chamadas em japonês de "gunte"(軍手) são, de acordo com a definição do dicionário, "luvas feitas de fios grossos de algodão para serem utilizadas em trabalhos". E olha que os japoneses levam a definição a sério! Qualquer transplante de muda no canteirinho dos fundos de casa ou mesmo uma arrumação naquela estante entupida de livros já é motivo suficiente para os caras botarem as benditas luvas brancas. Sem a luva, parece que ninguém conseguem arrumar nada! É impressionante. Não estou questionando a questão da higiene, da praticidade ou do simples costume em si de botar luvas só para arrumar, mas confesso que acho engraçado essa quase que dependência. Lembro que no ano passado, quando a minha empresa estava para mudar de endereço, nós devíamos arrumar as nossas coisas e colocá-las em caixas com o nosso nome.
No dia da arrumação, chegamos no trabalho e encontramos em cada mesa, uma caixa grande de papelão desarmada, uma etiqueta e um par dessas luvinhas. Novinhas em folha! Em todas as mesas, o mesmo "kit arrumação": caixa, etiqueta e luvas. O mais engraçado foi a reação de um colega japonês ao ver que eu estava arrumando as minhas coisas sem essa de luvinha branca!
Achei muito simpático ele se preocupar comigo, mas ao mesmo tempo, achei engraçadíssima a cara que ele fez quando me viu sem luvas. Acho que na cabeça dele, era como se eu estivesse limpando um esgoto com as próprias mãos. Mas depois eu entendi qual era a dele. Talvez aquela era a primeira vez que ele tinha visto alguém fazer uma arrumação de peso, sem usar luvas especiais. Tudo bem, ajuda, protege e tudo mais. Mas me senti uma penélope quando comecei a arrumar tudo, usando a tal luva. Além do mais era para pegar nos meus dicionários e coisas pessoais! Fico imaginando as pessoas no Brasil que sempre mexeram com plantas, cuidam de hortas e vivem trocando as plantas para vasos maiores com as próprias mãos... será que elas sentem falta de uma luva dessas? O que elas diriam ao ver os japoneses com luvas no jardim?Meu avô, se fosse vivo, tenho quase certeza que diria: "Que mané luva!" Mas aqui é fato. Arrumou, mexeu com terra ou com lixo, não esqueça as luvas! Se rolar um mutirão de limpeza, podes crer que vão distribuir luvinhas brancas! Pode faltar vassoura, mas luvinha não vai faltar!

Mas atenção, não façam como eu que, quando cheguei ao Japão, comprei um par dessas luvas no 1,99 daqui e saí desfilando feliz da vida pelas ruas. Além de vagaba em relação às normais, todos – menos eu – sabiam que aquilo não era luva para se usar quando não se está arrumando, mexendo no lixo ou fazendo faxina!! E eu lá, amarradão com elas, em público! Acho que mal comparando, é mais ou menos como alguém sair na rua com uma toca de banho e achar que está usando uma simples boina.

Existe outras cores e modelos dessas luvas, mas me parece que as brancas são paixão nacional. A palavra de hoje pode ser "luva", em japonês se escreve com os ideogramas de "mão" (手) e "saco"(袋). Juntos, 手袋 formam a palavra "tebukuro". Diga-se de passagem, 軍手 (gunte) tem sua origem na palavra 軍用手袋 (gunyoo tebukuro), ou seja, "luvas para uso do exército" e eram usadas pelo antigo exército japonês!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Em plena luz do dia

"Akihabara"
"Tragédia"
Seja sincero(a). O que você pensaria ao ler no noticiário em plena segunda-feira a seguinte manchete: "Homem morre ao ser atingido por bala perdida no Rio de Janeiro". Pois é. Não precisa disfarçar. Eu sou carioca da gema e, desde que me entendo por gente, sei a fama - e sei também a realidade - que a minha cidade tem. Nunca notei nenhuma diferença com o passar dos anos. É sempre a mesma história. Mas então, o que você provavelmente sentiria ou, eu diria, sente, ao ler sobre "bala perdida no Rio de Janeiro" foi o que eu senti ao ler sobre "assassino nas ruas do Japão". Veja bem. Não quero abrir nenhum painel de discussão sobre que país é o lugar mais seguro do mundo - se é que esse lugar existe realmente. Até porque, o resultado não me interessa - e há 32 anos, convivo com a minha cidade nas primeiras colocações. Tudo bem.
Mas a verdade é que desde que eu cheguei neste país, este não é o primeiro caso de um louco que sai esfaqueando inocentes pelas ruas japonesas. Uma colega brasileira disse uma vez: "Aqui (no Japão) a gente não precisa ter medo de assalto, mas eu tenho medo desses loucos na rua". Isso porque, vira e mexe aparece um maluco desse, revoltado, que com uma faca sai matando o povo na rua. Existe até uma palavra em japonês só para designar esses caras: 通り魔(toorima). Em dicionários de inglês ou de português só encontrei a explicação: "louco que sai pelas ruas matando".
O que varia entre todos esses casos é no máximo o local e a maneira com que o assassino adquiriu a faca. O local é muito importante. Veja este caso. Akihabara! Um dos lugares no Japão mais visitados por turistas do mundo inteiro! Talvez por isso a notícia tenha repercutido tanto nos jornais do mundo inteiro. Mas como eu disse, este não é o primeiro caso. Até a frase "eu queria matar, podia ser qualquer um"... já está manjada. Assim como esse falou, outros já falaram. Confesso que nos primeiros casos, essa frase me causava arrepios. Mas agora, só acho uma falta de originalidade incrível.
É triste pensar nas pessoas que foram para Akihabara somente para se divertir ou comprar a câmera fotográfica dos sonhos. O que causa ainda mais um friozinho na barriga é saber que é um local em que eu mesmo poderia estar passando naquele momento. A mesma Akihabara que levei meu irmão e minha mãe para conhecerem quando eles vieram me visitar. Mas, não vou me mudar por causa disso. Não vou deixar o Japão só por causa dos loucos assassinos. Assim como, com certeza, se um dia eu tiver que voltar ao Brasil, é no Rio de Janeiro que eu vou morar.

A palavra de hoje pode ser essa 歩行者天国(hokoosha tengoku). Uma palavra interessante para designar a rua quando é fechada para pedestres. Ao pé da letra seria "Paraíso dos pedestres". Por isso, alguns repórteres japoneses não perderam a chance do trocadilho ao escreverem: 歩行者天国地獄に変えた, ou seja, "o Paraíso dos pedestres se transformou em um inferno". O que? Você não está sabendo desse caso? Dê uma olhada no site do O GLOBO.

No Youtube você já encontra:

1. imagens gravadas por uma pessoa em Akihabara

no mesmo dia da tragédia.

2. imagens gravadas por uma pessoa em Akihabara
um dia depois da tragédia.